Surfe nas Olimpíadas: como torcer pelos atletas brasileiros em Tóquio

Tudo sobre a estreia do surfe, modalidade com altas chances de medalha para o país nos Jogos Olímpicos
Miguel A. Amutio / Unsplash

O surfe é uma das novas modalidades dos Jogos Olímpicos, com estreia marcada para julho de 2021, em Tóquio. Embora já seja um esporte conhecido mundialmente, com competições reguladas pela World Surf League, a entrada no programa olímpico tem o objetivo de aumentar a popularidade e os incentivos ao surfe, para que cada vez mais novos atletas possam pegar onda. E para nós, brasileiros, as expectativas estão lá em cima: o país é uma potência do esporte e fomos um dos primeiros países a classificar o número máximo de surfistas para as Olimpíadas.

Como funcionará o surfe olímpico

A competição terá apenas 20 atletas de cada gênero, sendo que cada país pode levar até 2 por categoria. Quem já assiste aos torneios de surfe conhece bem o sistema de baterias, que também será usado nas Olimpíadas: o primeiro round consiste em cinco baterias, de 4 surfistas cada, e os dois melhores vão direto para o round 3. O terceiro e o quarto colocado de cada bateria disputam o round 2, que funciona como uma repescagem. No round 3, são 16 surfistas divididos em 8 baterias por duplas, que disputam quartas de final, semifinal, medalha de bronze e medalha de ouro. 

Cada bateria terá 30 minutos de duração, dependendo das condições do mar. A final é uma bateria mais longa, de 35 minutos, e o intervalo entre cada bateria é de apenas 6 minutos na programação inicial. A pontuação é atribuída pelas duas melhores ondas surfadas pelo atleta, que pode fazer tentativas em, no máximo, 15 ondas diferentes. Os critérios de avaliação são bastante subjetivos: “Há um grupo de juízes que avalia a habilidade, o estilo e o grau de dificuldade das manobras”, explica Adalvo Argolo, presidente da Confederação Brasileira de Surf (CBSurf). Por fim, cada juiz dá uma pontuação de 0 a 10 por onda e a melhor e pior nota são descartadas – o resultado é a média dos demais pontos, e a nota final é a soma das melhores ondas.

Onde vão ser as baterias de surfe na Olimpíada

O surfe vai acontecer na praia de Tsurigasaki, a 60km de Tóquio, entre os dias 26 de julho e 2 de agosto. A competição pode se resolver em apenas 4 dias, mas tem todo esse período para lidar com eventuais mudanças climáticas – fator decisivo para a realização das baterias. 

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Brasileiros classificados

O Brasil já faz sucesso no surfe há algum tempo. Na categoria masculina, o nome mais conhecido é o de Gabriel Medina, primeiro brasileiro a vencer o campeonato mundial da modalidade – conquista que já realizou duas vezes, em 2014 e 2018. Medina e Ítalo Ferreira garantiram as duas vagas da categoria masculina em dezembro, pelo ranking da WCT (World Championship Tour), mundial da WSL na etapa final do torneio no Havaí. As vagas femininas também foram preenchidas: Tatiana Weston-Webb se classificou nas quartas do mundial e Silvana Lima conquistou a segunda posição na final, também no Havaí. “A esperança é de uma boa performance dos surfistas brasileiros”, comenta Adalvo.

Além dos quatro atletas classificados, outros surfistas brasileiros também se destacam no cenário mundial, como Filipe Toledo, Caio Ibelli e Taina Hinckel, atletas no top 20 do ranking mundial de 2019. No longboard, modalidade do surfe na qual a prancha é maior, também temos brasileiros bem no ranking: a carioca Chloé Calmon terminou 2019 em 2° lugar no ranking feminino do mundial, enquanto Rodrigo Sphaier ficou em 2° no ranking masculino.

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A preparação para as Olimpíadas está a todo vapor. “Os surfistas classificados estão fazendo exames no laboratório do Comitê Olímpico brasileiro e se preparando para chegar a Tóquio no auge da sua forma física e técnica”, explica Adalvo. Muito além dos treinos apenas de surfe, muitas vezes diários, os atletas também fazem outras atividades, como academia, natação e treinos funcionais: “A gente sempre se prepara ao máximo. A preparação de atletas do surfe mudou muito e, quando se tem um bom suporte, de patrocínio e comitê olímpico, conseguimos focar em dar nosso melhor”, aponta Silvana Lima, surfista classificada para Tóquio e atleta de Neutrox.

Como todos os esportes estreantes nos Jogos Olímpicos, o surfe também passa a ganhar mais suporte e visibilidade, o que aumenta o incentivo à profissionalização de novos atletas. Silvana conta que a grande vantagem de vermos o surfe nas Olimpíadas é o crescimento do respeito em torno da modalidade: “Antigamente, era um esporte mal visto, muita gente não gostava que o filho fosse surfar”. 

Do Ceará para o Japão 

Nascida na praia, a cearense Silvana Lima, 35 anos, seguiu os passos de seus irmãos mais velhos e pegou as primeiras ondas com um pedaço de madeira, por não ter condições de comprar uma prancha. Ela também praticava futsal e capoeira, mas foi pelo surfe que se apaixonou. Silvana foi longe e já conquistou o posto de melhor surfista do Brasil oito vezes, foi vice-campeã mundial duas vezes, campeã brasileira  quatro vezes e campeã sul americana uma vez. Ufa! “Eu me sinto muito orgulhosa e gosto de fazer isso. Sou muito competitiva”, diz. 

A classificação olímpica veio logo após Silvana se recuperar de uma cirurgia no joelho, o que fez com que ela perdesse algumas etapas da competição mundial. Mesmo assim, ela deu a volta por cima e conquistou a segunda vaga para representar o Brasil em Tóquio. Para quem já rodou o mundo em competições de surfe, a atleta não enxerga tantas mudanças na preparação para as Olimpíadas, embora ache que sentirá uma adrenalina diferente: “Está sendo uma coisa nova para mim, mas vamos nos preparar da melhor forma, para podermos ir para a água somente para surfar, tirar boas notas e passar na bateria”.

Silvana está focada tanto nas Olimpíadas, quanto em outras competições do circuito mundial de 2020. A ansiedade está lá em cima e as expectativas de uma boa performance são as melhores, mas mesmo assim, a atleta mantém os pés no chão, aposta nos treinamentos e promete dar o seu melhor em Tóquio: “Fico muito feliz com esse momento, nunca imaginaria que poderia estar competindo nas Olimpíadas, é o que me motiva a surfar melhor e eu quero fazer bonito”, conclui. 

Reportagem Camila Junqueira

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